ESPELHO

(Imagem: Fonte)

Ao sair do banho, olhei-me no espelho. Já era a 30º vez que fazia aquilo no dia. E para que? Apenas para lembrar do quanto o meu peso e minha aparência me tornavam miserável, não digna do olhar das pessoas? Eu sabia. Todos queriam desviar seus olhares ao me verem. Era uma perturbação na sua imagem da realidade. É a quebra de que nem todos nascem obedecendo ao padrão dado pelas revistas.

Constantemente me lembrava das milhares de vezes em que, ao visitar uma banca de jornais, sentia os olhares não só das pessoas que passavam por ali, mas também dos rostos estampados nas capas das revistas, que fincavam seus olhos em mim e pareciam dizer “Seja como nós. Você precisa ser como nós. Ninguém irá amá-la desse jeito. Você precisa mudar. Afinal, como poderia ser feliz assim?”

Todo dia era a mesma coisa. No almoço, uma maçã me aguardava dentro da minha mochila, depois de cinco horas sem comer. Aquilo parecia o suficiente para mim. Aliás, era mais do que o suficiente, sendo que, na verdade, não deveria me permitir nem mascar um chiclete que fosse. Porém também não poderia fazer com que as pessoas me achassem anormal por não comer nada depois de tantas aulas chatas, uma atrás da outra.

Minha mãe não sabia que eu comia apenas isso, saía cedo de casa por conta do trabalho.

Quando saía com minhas amigas, dizia que não estava com fome, que já havia comido em casa.Elas sempre diziam que toda vez que me viam eu parecia cada vez mais magra e fina. Isso para as que não me viam com muita frequência (e que, por sorte, consegui fazer com que fossem poucas, imagina se levantasse suspeitas?).

A janta era mais difícil de escapar. Mesmo com o trabalho, minha mãe ainda gostava de manter esse hábito de “refeição sagrada” dentro de nossa família, mesmo que às vezes ela própria se mostrasse burlando seu próprio sistema e determinação sagrada, correndo com seu prato e talheres até a sala de estar, no horário da novela. Nessas ocasiões, ela sempre se esquecia do guardanapo.

Mesmo assim, sempre dava um jeito de não comer tanto quanto seria o esperado. Acho que ela ainda acredita que eu comia algo na cantina da escola mais ou menos às 17h antes de voltar para casa. Desculpe por isso, mãe, mas eu precisava disso para ser feliz.

Nos dias que eu precisava ir ao banheiro para deixar ir a janta da noite anterior, eu me olhava no espelho mais uma vez. Era inevitável como se fosse uma espécie de ritual, quase uma obrigação. Quando nada parecesse estar certo ou prestes a correr fora das minhas mãos, lá estava ele, meu amigo, para me lembrar do meu propósito de vida e de quanto eu seria feliz depois que conseguisse alcançar a minha tão sonhada meta de vida.

Imagina só como as pessoas me olhariam depois disso? Ou melhor, quantas passariam a me olhar depois da grande mudança? Com certeza, seriam várias. Eu me tornaria aquela que conseguiu atingir a imagem da beleza suprema. Ou mais uma delas. Não importa, eu finalmente faria parte do grupo de garotas bonitas, eu finalmente seria aceita, as pessoas finalmente olhariam para mim de um jeito diferente. E era tudo o que me importava naquele momento.

Infelizmente, esse dia não chegou para mim.

***

Felicidade. Ah, essa bendita palavra difícil.

Nos ensinam na escola que a felicidade é uma coisa relativa e até fácil de se conseguir se você prestar muita atenção aos detalhes. Mas o que eles nunca percebem é que a própria sociedade nos condena e nos faz acreditar no contrário. Quer ser feliz? Toma aqui a lista de coisas que você precisa fazer antes para conseguir isso. E se posso dizer uma coisa, meu amigo, é que a última coisa que essa lista é é curta.

Acho que falta uma coisa para as pessoas perceberem  que as libertaria de toda essa neura (sim, eu considero isso como uma neura): Elas não precisam da aprovação das outras pessoas, independentemente de quem essa pessoa seja. Pode ser a presidente do seu país, a nação mais poderosa do mundo, o general mais respeitado, as pessoas que te trouxeram para esse mundo ou até mesmo seus próprios amigos. Não importa.

O ser humano precisa aprender a se meter menos na vida dos outros. Que mania é essa que a gente tem de achar que tudo no mundo precisa da nossa opinião? Posso dar um conselho? Ninguém liga para a sua opinião e, se ligam, faça com que ela seja uma coisa ao menos construtiva e não devastadora. O mundo agradece. A paz agradece. Tudo bem? Tudo bem, de nada.

Não me interpretem mal, minha intenção aqui não é julgar ninguém que esteja fazendo dieta ou sofrendo de algum distúrbio mental como anorexia ou transtorno de compulsão alimentar periódica. O meu único intuito com isso é fazer essas pessoas (ou pessoas próximas delas, por que não?) se perguntarem:

Você está bem com isso? É realmente isso que você deseja para a sua vida? Ou está fazendo isso para manter uma imagem social que, no final das contas, não te traz nada de bom e não vale a pena?

Quanto àquelas que são alvo de distúrbios alimentares: Acredite, isso não é saudável. Há um jeito certo e adequado de se fazerem certas coisas, mesmo algumas delas não parecendo ter outra opção ou alternativa melhor do que a que a gente imagina. Mas não adianta nada todos falarem isso para você se você mesmo/a se tornar consciente disso por conta própria.

A escolha é e sempre será sua. Então, cuidado com o que escolhe.

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2 opiniões sobre “ESPELHO

    • Eu fiz esse post porque sei que muitas pessoas sofrem com esse tipo de doença e acredito que isso tenha ficado cada vez mais frequente atualmente devido ao julgamento e pressão que a sociedade acaba colocando sobre nós. Espero que esse post tenha ajudado você de alguma forma e desejo toda energia positiva do mundo para vc <3333

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