Vá se aventurar por aí

– Filha, nós teremos que nos mudar para o campo.

Foi tudo o que meus pais disseram antes da minha vida virar um completo desastre. Não me leve a mal, eu realmente aprecio a natureza e tudo isso, mas viver no meio do nada? Ótimo. Também não consigo pensar em nada para descrever tal situação além de: chato. Ou, na visão dos meus pais, “uma oportunidade única na sua vida”. Realmente, só assim eu nunca mais teria acesso à internet ou a qualquer outra coisa comum nas nossas vidas (como produtos prontinhos para o seu consumo).

Fora isso, o dia que chegamos foi horrível. Não tínhamos nada para comer além do que havíamos trazido, e, por causa do cansaço da viagem, nossas idas para a cidade iriam ficar cada vez mais raras, já que não compensava “ficar 2 horas enfurnado em um carro só por causa disso”. O ambiente agradece. Minha paciência não. “Já pode esquecer também suas saídas ao shopping com suas amigas”, disseram meus pais. O que faltava acontecer agora?

Mas claro que só por isso eu não deixei de tentar usar o modem de internet que meus pais acabaram comprando depois de muita insistência pela minha parte. Porém, ao tentar abrir a página, não sei como, uma mensagem fora do normal apareceu na tela: “Não foi possível carregar essa página porque você precisa viver a vida”. Verifiquei, após isso, que o sinal estava muito fraco e conclui que devia ter dado algum pane no sistema.

No mesmo dia, fiquei o dia inteiro sentada no chão simplesmente sem fazer nada. O que eu poderia fazer, afinal de contas? Não podia conversar com minhas amigas, assistir a alguma série ou acompanhar o que as pessoas famosas estavam fazendo por conta da falta de internet. Além disso, meu aplicativo que regulava o que eu devia ou não comer e que me ajudava em minha dieta não estava carregando, pelo mesmo maldito motivo. Mais um problema na minha enorme lista. Se eu acabasse ficando ainda mais gorda do que os meus 60 kg, a culpa seria toda dos meus pais.

Lembrei também que não poderia ir à banca mais próxima, dar uma olhada nas revistas com dicas de soluções para pneus na barriga, ou mesmo para observar aqueles doces que pareciam tão bons- e os quais eu apenas observava, já que comê-los arruinaria com a minha dieta- na padaria.

Foi então que um dia saí arrastada da nossa pequena chácara, cansada de não ter nada para fazer. Caminhei sem rumo, apenas pensando em todas as coisas que já havia deixado de fazer e em tudo que eu estava perdendo. Era como se eu estivesse vivendo em outra galáxia. A única coisa que pareceu capaz de desviar a minha atenção de meus devaneios foi um pequeno rio que passava ali por perto. Resolvi sentar-me em uma pedra próxima a ele. A sensação dos meus pés tocando aquela água que se mostrava tão refrescante e cristalina fez com que eu me esquecesse por alguns minutos de todos os meus problemas.

Meus pensamentos organizados novamente voltaram àquela frase do primeiro dia na tela do computador “Não foi possível carregar essa página porque você precisa ir viver a vida”. Até parece que eu não estava vivendo minha vida até então. Como poderia? Eu tinha meus objetivos. Um deles, por exemplo, era conseguir emagrecer 10 kg para conseguir entrar naquele vestido tão lindo que comprei para a festa de formatura da minha amiga. Lembro-me como se fosse ontem o dia. Minha mãe dizendo para eu comprar um número maior, já que eles tinham no estoque mesmo. E eu, toda convencida, dizendo: “Não, se eu comprar alguns números menores, eu com certeza me sentirei motivada para emagrecer!” Mas, ao que parecia, isso era mais difícil do que eu pensava.

Porém, comecei a pensar comigo mesma, por que eu me achava tão gorda? Desde quando eu penso assim? A última vez que fui ao médico, ele disse que estava tudo bem. Revendo a cena em minha cabeça, não me vinha à mente nenhuma fala sobre o meu peso. “Acho que ele ficou com vergonha de comentar”, foi o que pensei na época para refutar esse argumento. Afinal, todas aquelas revistas que lia pareciam me dizer que eu precisava emagrecer. Ser mais magra para ser bonita.

“Será que eu realmente preciso disso para ser feliz?”

Como se vive a vida, afinal?

Nesse momento, folhas e galhos de árvores próximas começaram a balançar. Era o vento chegando. Alguém em algum lugar parecia querer dizer que não era necessário se preocupar com isso, afinal, todos nós passávamos e vivíamos com essa mesma pergunta em nossas cabeças. Uma brisa realmente acolhedora, cochichando bem baixinho: “Talvez você não precise de nada disso. Talvez a vida seja muito mais simples de ser vivida do que você pensa”.

Agora, finalmente, comecei a compreender o que aquela mensagem queria dizer. Ela queria me negar tudo o que eu já havia experimentado até então e me estimular a fazer acontecerem coisas novas. Coisas que talvez nunca tenham passado pela minha cabeça, mas que existiam. Só eu que nunca havia percebido. Continuei minha caminhada, ainda sem saber para onde ir, mas desta vez com a certeza de que meus olhos se abririam para o mundo de um jeito totalmente diferente a partir dali.

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