E então, o que vai ser?

Entro em um café em uma manhã de inverno. Logo já agradeci por ter feito isso, lá estava quentinho e ainda poderia comer alguma coisa antes de ir para a faculdade. Só faltava o wi-fi para completar a minha alegria, mas acho que isso já é pedir demais.

Eu sempre achei estranho ver jovens em café. Na minha cabeça, aquele era lugar de gente “adulta”. Séria, responsável, cheia de obrigações para fazer e sem fazer realmente algo. Chata, para ser sincera.

De prontidão, já recebo um cardápio na minha frente, com um garçom de caderneta na mão, pronto para jogar um “bom dia” arrastado para mim e partir para atender outro cliente. Enquanto via as opções, logo ele voltou novamente: “E então, qual vai ser o seu pedido?”. Eu, que mal havia terminado de ler completamente (mania minha) a primeira página, simplesmente disse: “Ainda não me decidi”. Ouvi ele resmungando e já indo em rumo do próximo cliente que chegava. “Que perda de tempo”, deve ter pensado.

Depois de mais três minutos (desta vez estava na parte de bebidas) veio outro garçom perguntar: “Já fez o seu pedido, senhorita?” Aquilo me fez lembrar de uma coisa, e, por conta disso, acabei meio que sussurrando meio que gaguejando: “Ainda não, senhor…”

Nem vi para onde foi ou que cara feia fez. Logo comecei a imaginar todos os meus entes queridos, mas que de algum modo me incomodavam pelo mesmo comportamento repetitivo. Eram sempre perguntas com a mesma estrutura, tentando me impor algo que eu já não aguentava mais. “Como será o seu futuro? O que estudará? Com o que trabalhará?”, diziam meus pais e professores. “Quando ela vai arranjar um namorado?”, diziam aquelas tias que eu só via uma vez por ano. “O que será da sua vida daqui para frente?”

Tudo no futuro. Minhas respostas eram sempre as mesmas: “Ainda não me decidi”. “Ainda não me decidi”. “Ainda não me decidi”. Assim como o comentário que ouvia: “Coitadinha, ela ainda não se decidiu”. E quem disse que eu precisava me decidir? Vocês, adultos, estão tão acostumados com exigências e coisas a fazer, que parecem que querem que façamos a mesma coisa. Tenhamos essa mesma sensação de prisão. Mas, afinal, quem disse que eu preciso me decidir agora? De quem é a vida mesmo? De quem estamos falando mesmo? Desculpe se me enganei, mas achei que era da MINHA vida, de MIM.

No café da vida, as pessoas eram os clientes. Todas vítimas de milhares de padrões estabelecidos. Com vontade de mudar de lugar e conhecer pessoas novas, mas com medo de perder o seu próprio. Com frio na posição da sala onde pega o ar condicionando, mas nunca mudando com medo do que poderia acontecer depois.

No café da vida, devemos sair para preparar o nosso próprio café, leite, torrada, misto-quente, ou o que quer que seja. No café da MINHA vida, eu não quero ter que me submeter a todas essas expectativas e coerções da sociedade.

Por fim, um último garçom veio até mim, e, quase como um pedido, perguntou: “E então, o que vai ser?”. Levantei da cadeira, e, decidida e com um sorriso no rosto, respondi: “Acho que tentarei achar a minha própria felicidade”. Com isso, os outros clientes do café ouviram o sino da porta tocar. Seria o primeiro passo dado.

***

Esse texto é para quem já passou ou está passando pelo ensino médio e enfrenta situação parecida: A cobrança de nossos pais, familiares e até amigos e pessoas que mal nos conhecem pela escolha do nosso futuro. Como se pudéssemos fazer uma decisão para “o resto de nossas vidas” com apenas 16/17 anos.

Só queria que os pais dessem um suporte maior aos seus filhos nesse quesito. Estimulá-los a pesquisar pelos diversos cursos de graduação que possuímos atualmente, levá-los a feiras sobre o assunto, fazê-los passar por coisas que possam nos ajudar a ter pelo menos uma noção de quem somos. Do que gostamos, do que não gostamos. Ou de quem queremos ser. Nem que seja uma conversa com ambos os lados aptos a ouvirem o que cada um tem a dizer.

Falando por experiência própria e vindo de uma família conversadora em quase tudo (ainda bem que se tratando disso a minha mãe é mais tranquila por ter escolhido fazer algo que não gostava tanto assim quando era jovem), é difícil tomar uma decisão de qual será o próximo rumo que você seguirá na sua vida. Isso se torna ainda mais difícil quando os pais parecem se preocupar com as coisas erradas e, como eu disse, não dão o devido suporte ou apoio para o que quer que você queira fazer.

Meu pai pensa muito se eu vou conseguir me sustentar com o meu futuro trabalho. Eu até entendo o ponto de vista dele e suas preocupações, mas não acho que isso deva ser levado tanto em consideração quanto outros aspectos nesse momento.

Para mim, o mais importante em uma decisão como essa é escolher aquilo que você acha que irá fazê-lo feliz. Algo pelo qual você se interessa, que tomaria tempo da sua vida com prazer. É preciso pensar mas áreas de atuação? Sim. No dinheiro? Sim. Estágio? Sim. Mas do que tudo isso adianta se você não for feliz com o que faz?

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